domingo, 23 de junho de 2013

Como se tivesse o direito, como se alguém tivesse o direito!- Replicou Samuel.- As pessoas nunca têm o direito, mas sempre agem e sempre se queixam de outrem não o ter. Porque os pássaros também morrem, Julieta. Morrem porque as flores já não desabrocham e o oceano deixou de ser melancólico. Mas como se eles, os outros, se importassem: Para eles tudo isso são dores secundárias. Quem por elas sofre e por elas reflecte são os poetas, os poetas Julieta, porque eles não julgam, só entendem. Como se de uma gota de mel se tratasse. Algo que aparenta ser tão simples, tão fácil, tão agradável, tão doce, mas que esconde uma complexidade quase incompreensível. E que a vida está cheia de momentos de impacto está, Julieta. Está porque quando deles te recordas ainda ouves a música de fundo na qual pensaste no momento. De olhos vidrados, sabes?
E o que são os momentos sem pessoas? O que são as pessoas sem os momentos? Sem histórias? São o vazio. E como nós agimos mal ao longo da vida... isso nunca ninguém entende por completo. Mas alegra-me pensar que o fazemos por alguma reacção sem ser a de impulso. Gosto de pensar que algo dentro de nós decide fazê-lo porque sabe que tem que o fazer. Não para aprendermos uma lição, como se diz. Algo maior. Mais diabólico. Mais angelical, quem sabe. Algo mais forte que isso.
Agora vai pentear esses caracóis castanhos, Julieta, e vai-te. Vai pela porta ou pela janela. Vai pelo telhado, se o quiseres. O que importam as consequências quando se é destemido?