E ela passou mesmo ao meu lado, a beber limonada
de um copo de barro, despenteada, um pouco desorientada, à procura do
invisível; perdida em meras ilusões, apaixonada pelo inexplicável, mas de certo
modo, credível. Tropeçou e apoiou-se no meu braço para não cair e,
completamente descontraída, olhou para o meu rosto, riu, e seguiu caminho.
Ele, pelo contrário, (des)concentrado no trabalho, andava de passo acelerado com a mala preta dos documentos e a do portátil nas mãos, e desajeitadamente, tentava alisar a gravata engelhada porque quem passava a ferro era a noiva que tinha levado os miúdos para casa da sogra. Pelo menos foi o que disse ao patrão. Perguntou-me as horas e eu sorri, de boa vontade, e disse que eram duas e um quarto, quando na verdade eram duas e meia. Ele abrandou o passo.
Ele ainda era novo, porém, andava muito despenteado e desmazelado, sujo e malcriado. Bastante alcoolizado pelo seu coração destroçado, e magoado um pouco acima do olho, um corte quase tão profundo como a sua miséria, mesmo entre a pálpebra e a sobrancelha muito grossa. As pessoas, muito principalmente as mulheres e os idosos, olhavam-no com desprezo, e isso era quando não fugiam dele. Não se aproximava das crianças mas olhava-as com ternura. De longe, olhou para mim com olhos de perdão e desatou a chorar, ali, deitado no meio do chão em frente á ótica.
Ele, pelo contrário, (des)concentrado no trabalho, andava de passo acelerado com a mala preta dos documentos e a do portátil nas mãos, e desajeitadamente, tentava alisar a gravata engelhada porque quem passava a ferro era a noiva que tinha levado os miúdos para casa da sogra. Pelo menos foi o que disse ao patrão. Perguntou-me as horas e eu sorri, de boa vontade, e disse que eram duas e um quarto, quando na verdade eram duas e meia. Ele abrandou o passo.
Ele ainda era novo, porém, andava muito despenteado e desmazelado, sujo e malcriado. Bastante alcoolizado pelo seu coração destroçado, e magoado um pouco acima do olho, um corte quase tão profundo como a sua miséria, mesmo entre a pálpebra e a sobrancelha muito grossa. As pessoas, muito principalmente as mulheres e os idosos, olhavam-no com desprezo, e isso era quando não fugiam dele. Não se aproximava das crianças mas olhava-as com ternura. De longe, olhou para mim com olhos de perdão e desatou a chorar, ali, deitado no meio do chão em frente á ótica.
Ela era estudiosa, notava-se. Saía agora da
escola, apesar de, na sua cabeça, ainda estar a fazer equações matemáticas. Com
os livros debaixo do braço e mochila às costas, olhava para o chão enquanto
andava. Pura e simplesmente para não ver as pessoas olhar para ela por ser
diferente. Mas por mais que se concentrasse nas tais equações ou na análise
morfológica daquela frase, ainda as conseguia ouvir a comentar o seu cabelo
apanhado, os seus óculos á secretária ou a camisa apertada até ao último botão.
Sem falar nos sapatos á vela.
Ela, ela sim! Uma verdadeira personagem. Pode dizer-se muito sinceramente que não a conhecia mas que ela me conhecia a mim, aliás, melhor do que ninguém. Passava a vida toda a saltar de um lado para o outro, a cantar, e sempre a falar. Tagarela ! De facto, pode denominar-se alguém realmente irritante. Estava sempre, sempre a chatear-me quando fazia alguma coisa de mal. Fazia-me sentir horrivelmente comigo mesma, e eu chorava mas ela não me dava um desconto, nunca. Era a única que me conseguia fazer pedir desculpas, sempre que a situação se tornava mais desagradável. Porém, sempre que fazia uma boa acção, nem que fosse simplesmente dar 5 cêntimos á senhora sentada no chão do metro, ela fazia com que ficasse feliz, todo o dia. Dava-me lições, lições de moral para ser alguém melhor neste mundo, mas fazia-o sem qualquer razão ou recompensa. Nunca a cheguei a entender e não a vejo há uns tempos.
Sim, ela era a mais jovem. Mesmo assim a que eu gostava mais. Saía á noite, todos os dias, fazia o que queria, era mal comportada, saía á rua de saltos de agulha verde fluorescentes e baton vermelho, dançava em qualquer ocasião, sozinha ou acompanhada. Gostava de estar sempre bonita e exagerada. Comia gelados todos os dias e bebia whisky com os cereais, logo pela manhã. Pintava as unhas de cores diferentes e também todas as paredes da cidade. Escrevia nelas o seu nome, muitas vezes com baton. Gostava de se deitar nua no jardim e era livre. Demasiado nova para se preocupar com os otários dos vizinhos.
No entanto havia sempre aqueles lá no meio de uma multidão. O lamechas e o aventureiro. A que estava sempre atenta e a que se ria 24 horas por dia. A que estava sempre a fazer exercício físico e aquele balofo. Uma que não queria lavar os dentes ou tomar banho e a irmã que estava sempre a dormir; tinham uma mãe atenta e cuidadosa. Havia a pequenina, sensual e provocante, o garanhão, o porco e a esquelética. A bruxa mágica. O rico e a pobre. A inocente e a pecadora. A delinquente e a viciada. A apaixonada.
Mas não vou passar a vida a descrever a cidade do meu cérebro.
Ela, ela sim! Uma verdadeira personagem. Pode dizer-se muito sinceramente que não a conhecia mas que ela me conhecia a mim, aliás, melhor do que ninguém. Passava a vida toda a saltar de um lado para o outro, a cantar, e sempre a falar. Tagarela ! De facto, pode denominar-se alguém realmente irritante. Estava sempre, sempre a chatear-me quando fazia alguma coisa de mal. Fazia-me sentir horrivelmente comigo mesma, e eu chorava mas ela não me dava um desconto, nunca. Era a única que me conseguia fazer pedir desculpas, sempre que a situação se tornava mais desagradável. Porém, sempre que fazia uma boa acção, nem que fosse simplesmente dar 5 cêntimos á senhora sentada no chão do metro, ela fazia com que ficasse feliz, todo o dia. Dava-me lições, lições de moral para ser alguém melhor neste mundo, mas fazia-o sem qualquer razão ou recompensa. Nunca a cheguei a entender e não a vejo há uns tempos.
Sim, ela era a mais jovem. Mesmo assim a que eu gostava mais. Saía á noite, todos os dias, fazia o que queria, era mal comportada, saía á rua de saltos de agulha verde fluorescentes e baton vermelho, dançava em qualquer ocasião, sozinha ou acompanhada. Gostava de estar sempre bonita e exagerada. Comia gelados todos os dias e bebia whisky com os cereais, logo pela manhã. Pintava as unhas de cores diferentes e também todas as paredes da cidade. Escrevia nelas o seu nome, muitas vezes com baton. Gostava de se deitar nua no jardim e era livre. Demasiado nova para se preocupar com os otários dos vizinhos.
No entanto havia sempre aqueles lá no meio de uma multidão. O lamechas e o aventureiro. A que estava sempre atenta e a que se ria 24 horas por dia. A que estava sempre a fazer exercício físico e aquele balofo. Uma que não queria lavar os dentes ou tomar banho e a irmã que estava sempre a dormir; tinham uma mãe atenta e cuidadosa. Havia a pequenina, sensual e provocante, o garanhão, o porco e a esquelética. A bruxa mágica. O rico e a pobre. A inocente e a pecadora. A delinquente e a viciada. A apaixonada.
Mas não vou passar a vida a descrever a cidade do meu cérebro.
