quarta-feira, 14 de setembro de 2011

; welcome.


E ela passou mesmo ao meu lado, a beber limonada de um copo de barro, despenteada, um pouco desorientada, à procura do invisível; perdida em meras ilusões, apaixonada pelo inexplicável, mas de certo modo, credível. Tropeçou e apoiou-se no meu braço para não cair e, completamente descontraída, olhou para o meu rosto, riu, e seguiu caminho.

Ele, pelo contrário, (des)concentrado no trabalho, andava de passo acelerado com a mala preta dos documentos e a do portátil nas mãos, e desajeitadamente, tentava alisar a gravata engelhada porque quem passava a ferro era a noiva que tinha levado os miúdos para casa da sogra. Pelo menos foi o que disse ao patrão. Perguntou-me as horas e eu sorri, de boa vontade, e disse que eram duas e um quarto, quando na verdade eram duas e meia. Ele abrandou o passo.

Ele ainda era novo, porém, andava muito despenteado e desmazelado, sujo e malcriado. Bastante alcoolizado pelo seu coração destroçado, e magoado um pouco acima do olho, um corte quase tão profundo como a sua miséria, mesmo entre a pálpebra e a sobrancelha muito grossa. As pessoas, muito principalmente as mulheres e os idosos, olhavam-no com desprezo, e isso era quando não fugiam dele. Não se aproximava das crianças mas olhava-as com ternura. De longe, olhou para mim com olhos de perdão e desatou a chorar, ali, deitado no meio do chão em frente á ótica.

Ela era estudiosa, notava-se. Saía agora da escola, apesar de, na sua cabeça, ainda estar a fazer equações matemáticas. Com os livros debaixo do braço e mochila às costas, olhava para o chão enquanto andava. Pura e simplesmente para não ver as pessoas olhar para ela por ser diferente. Mas por mais que se concentrasse nas tais equações ou na análise morfológica daquela frase, ainda as conseguia ouvir a comentar o seu cabelo apanhado, os seus óculos á secretária ou a camisa apertada até ao último botão. Sem falar nos sapatos á vela.

Ela, ela sim! Uma verdadeira personagem. Pode dizer-se muito sinceramente que não a conhecia mas que ela me conhecia a mim, aliás, melhor do que ninguém. Passava a vida toda a saltar de um lado para o outro, a cantar, e sempre a falar. Tagarela ! De facto, pode denominar-se alguém realmente irritante. Estava sempre, sempre a chatear-me quando fazia alguma coisa de mal. Fazia-me sentir horrivelmente comigo mesma, e eu chorava mas ela não me dava um desconto, nunca. Era a única que me conseguia fazer pedir desculpas, sempre que a situação se tornava mais desagradável. Porém, sempre que fazia uma boa acção, nem que fosse simplesmente dar 5 cêntimos á senhora sentada no chão do metro, ela fazia com que ficasse feliz, todo o dia. Dava-me lições, lições de moral para ser alguém melhor neste mundo, mas fazia-o sem qualquer razão ou recompensa. Nunca a cheguei a entender e não a vejo há uns tempos.

Sim, ela era a mais jovem. Mesmo assim a que eu gostava mais. Saía á noite, todos os dias, fazia o que queria, era mal comportada, saía á rua de saltos de agulha verde fluorescentes e baton vermelho, dançava em qualquer ocasião, sozinha ou acompanhada. Gostava de estar sempre bonita e exagerada. Comia gelados todos os dias e bebia whisky com os cereais, logo pela manhã. Pintava as unhas de cores diferentes e também todas as paredes da cidade. Escrevia nelas o seu nome, muitas vezes com baton. Gostava de se deitar nua no jardim e era livre. Demasiado nova para se preocupar com os otários dos vizinhos.

No entanto havia sempre aqueles lá no meio de uma multidão. O lamechas e o aventureiro. A que estava sempre atenta e a que se ria 24 horas por dia. A que estava sempre a fazer exercício físico e aquele balofo. Uma que não queria lavar os dentes ou tomar banho e a irmã que estava sempre a dormir; tinham uma mãe atenta e cuidadosa. Havia a pequenina, sensual e provocante, o garanhão, o porco e a esquelética. A bruxa mágica. O rico e a pobre. A inocente e a pecadora. A delinquente e a viciada. A apaixonada.

Mas não vou passar a vida a descrever a cidade do meu cérebro.

sábado, 10 de setembro de 2011


Podes já te ter questionado um bilião de vezes quem és tu, ou o que fazes aqui; porque o peixe dourado morreu.
Podes ter feito muito barulho no quarto porque a mãe se zangou contigo ou porque és simplesmente uma menina muito feia.
Podes ter partido aquela jarra porque por mais que te digam que representas bem, e por mais que gostes de o fazer sabes que não és boa nisso. Nunca foste, nunca serás.
Até podes ter pisado a flor cor de rosa do jardim porque eles não acreditam que o que tu vês (ou queres ver) esteja mesmo lá. Mas está.
As escolhas que queres seguir num momento já não as queres seguir no outro, e a explicação deles é sempre a idade e a confusão. Mas tudo o que tu queres é ser livre. De tudo.
Querias usar aquele vestido de renda que te faz parecer uma princesa mas já não te serve e de qualquer maneira eles iam gozar contigo.
Gostavas de ser loira, de olhos verdes e lábios rosados, como aquela da televisão mas sabes que isso não vai acontecer; e quanto mais tentas, pior ficas.
Recusam-se a deixar-te falhar como humana, e insultam a tua maneira de ser.
Não percebes porque é que a tua personalidade tão odiada não muda.
Dizem que tens mais capacidades mas não as usas, mas o que eles não sabem é que tu fazes o que te deixa realmente feliz.
Neste ponto, só sabes falar, confiar, e chorar com o gato.
Fazem escolhas por ti. Planeiam a tua vida, minuto a minuto, desenham um céu azul escuro no tecto do teu quarto e não aceitam que com esta idade tu queiras um arco-íris colorido.
Não consegues evitar fazer ou dizer coisas que ás vezes não deves.
Só deverias saber responder quando são eles a perguntar-te. Quem és tu?
Torna-se mais claro?