Porque o amor que eu achava que tinhas por mim nem passou de uma ilusão, no meu actual ponto de vista. O meu era demasiado real.
E questiono-me se ainda pensas em mim. Se sentes saudades e se choras um pouquinho de vez em quando. Se também escreves parvoíces destas à espera de um dia serem encontradas. Mas provavelmente nem te lembras.
Se te lembrasses de mim, lembrar-te-ías daquela menina pequena de cabelos suaves e consciência livre. De olhar leve. Mas essa menina cresceu, e eu já não tenho sete anos nem vejo as coisas da mesma maneira.
Provavelmente tu também envelheceste. Não deves continuar a ter a agilidade suficiente para me agarrar e rodar quando corresse para ti no meio da igreja.
Mas que rebeldes que nós éramos! É a ultima memória que tenho de ti.
Vou fazer 15 anos ao despertar do Verão. Claro que já não estou à espera que estejas presente no meu aniversário ou que sequer te lembres dele. Tal como nos últimos. E nos Natais, Páscoas, Carnavais e Jantares de Família. Já não espero ansiosa à porta de casa, ano após ano, já não pergunto se ligaste. Agora percebo o silêncio opaco e os olhares tristes que lançavam lentamente uns aos outros quando o fazia. Já não verifico o correio a cada dia. Já não vasculho o sótão da avó, não viro baús para ler o teu nome rabiscado entre o pó em livros, cadernos e discos de vinil. A esperança de um sinal teu já morreu. Mas a saudade permanece, e dói muito, cada vez que me lembro da pobre existência dela.
Olha que criança que sou. Quero-te tanto como quis todos os dias desde a infância.
E esta pequena dor cresceu repentinamente João Paulo, e cresceu muito.
Continuo ansiosa, sim, por ouvir todas as tuas histórias e aventuras novas, as brincadeiras que inventaste, as músicas que te inspiraram.
Pergunto-me se algum dia voltarás a escrever, se voltarei a ouvir a tua voz. Gostava dela, achava-a uma voz feliz.Até lá, juro guardar-te para sempre no fundo do peito, tio.









