segunda-feira, 30 de julho de 2012

Brava

Toscanini gravou uma obra sessenta e cinco vezes. Sabes o que ele disse quando terminou? "Podia estar melhor."
Um dia tu vais cair e chorar. E entender tudo. Todas as coisas. Que a única maneira de ser feliz é amar tudo e todos. Cada folha caída, cada raio de sol, cada pétala esvoaçante. Ajuda. Perdoa.
Que a irmandade fica connosco. Une-nos a todos, até ao fim dos tempos: foi a vida que me levou à tua porta.
Ensinei-me que há duas maneiras de vida justa: o caminho da Natureza e o caminho da Graça. Tens de escolher qual deles queres seguir.
A Natureza só se quer agradar a si mesma. Levar os outros a favor, também. Gosta de mandar neles. Ela encontra razões para ser infeliz quando todo o mundo brilha à volta dela. E o amor está a sorrir entre todas as coisas.
A Graça não se tenta agradar a si mesma. Aceita ser desprezada, esquecida, odiada. Aceita todos os insultos e ferimentos. Quem ama o caminho da Graça, porém, nunca tem um mau fim.
E perguntam-se ao seu amado Deus: "Onde estiveste Tu? Tu deixas acontecer qualquer mal. Porque haveria eu de ser bom se Tu não o és? Onde estiveste?! Sabes o que se passou? Porquê? Importas-te? (...)" Porque toda a gente tem a inexplicável vontade e necessidade de acreditar. Acreditar em algo, em alguém.
Há sempre tempos em que não podes fazer o que gostas. Fazes o que odeias.
E eu estou perdida porque não sei em que acredito, aliás, não sei em que acreditar. Acredito no Amor, acredito no Sol. Acredito que ele sorri para mim todos os dias, acredito que a Lua me embala todas as noites. Na Natureza. Acredito que me guia ao som das brisas, que me salva com o seu brilho. E eu ser-lhes-hei verdadeira, venha o que vier. Façam-me boa pessoa. Corajosa.
Façam-me não responder mal aos meus pais. Façam-me separar lutas. Façam-me valorizar tudo o que tenho. Não sei o que és. Ouves-me? Quero ver o que tu vês.
Onde estavas tu quando eu percebia os fundamentos da Terra, quando todas as estrelas da manhã cantaram juntas? Quando todos os pássaros gritavam de alegria? Onde?
Eu queria ser amada porque eu era grande, uma grande mulher. Eu não sou nada. Olha para a Glória a nosso redor: árvores, pássaros, solo. Sapientíssimos. Eu desonrei tudo, e não notei na Glória. Sou insensata.
És tudo o que tenho, és tudo o que eu quero ter.
Dizem que os bons são ingénuos. Que para chegar ao topo neste mundo tens que ser feroz e lutar com todas as forças. Dizem que se fores bom, as pessoas se aproveitam de ti. Que se queres ter sucesso não podes ser bom.
Mentiras.




Inspirada em "The tree of life".

terça-feira, 24 de julho de 2012

Já nem escrever sei. Não tenho razões, não tenho inspiração, não encontro as palavras certas, não me aguento em pé dentro de mim.
O corpo está vivo apesar de fragilizado mas a mente está queimada e eu não tenho medo. Voltei a ser um zombie.
Deitei-me no chão de peito virado para baixo novamente. A mesma gota escorregou, dançando ao som da mesma música, da mesma melodia. É razão para preocupação mas nem eu me consigo encarregar disso. A vontade de rasgar permanece com a mesma intensidade, provoca a mesma exaustão.
Já nem a minha cabeça confusa se importa com a sua pequena dor.
Encenei um passado falso, enganei-me este tempo todo.
Será que estás cá?

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que não vais aguentar, mas aguentas. Sei que parece que vais explodir, mas não explodes. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro de nós, nesse momento, não é um bom lugar para se estar."


E eu aguentei, e aqui estou eu, não é verdade?

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ontem disseste-me que a vida continuava e que ficaríamos aqui para sempre, ao sol, soltando leves respirações coordenadas para a atmosfera. Disseste que os pássaros cantariam até ás tardes de Novembro, admitiste o erro e a vergonha, a mágoa e a solidão.
Ontem admiraste o vento e os lençóis brancos, fingiste a imperfeição tão simples para a tua realidade, preferiste o difícil ao doce, o céu azul ao céu estrelado.
Ontem pressionaste a palma da tua mão contra a minha omoplata dorida, moveste o sol num império transparente de naturalidade, de facilidade, de eficácia. Ontem foste o escritor, o encenador, o realizador, e o actor principal, o herói deste mundo matreiro, materialista e malcriado, ontem foste parte de um futuro condensado, apesar de todo o teu passado condenado.


Mas a história é bem mais que isso.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Simples Metáforas.

Ainda me lembro de quando era garota: já adorava cozinhar.
E acima de tudo gostava de decorar o que fazia, deixar tudo bonito coberto de frutas, chocolate, natas e esse tipo de coisas atractivas num bolo.
E sabes como são os bolos quando se tiram das formas..
De antes gostava de virar a base para cima, porque não tinha formas de relevo, era plana e perfeita. Era essa que decorava.
Ao longo dos anos descobri que o outro lado, o que está por cima, o que mais se vê, o mais rugoso, é o mais bonito.
Cresci e percebi que a perfeição é feita de imperfeições.
Estou gorda e insatisfeita.