sábado, 16 de março de 2013

Lill' Lion King

Será que os génios escrevem sobre a própria genialidade?
É o que dizem: que quanto mais preenchida está a secretária, mais atarefada é a pessoa que nela trabalha. Sendo assim, como é possível eu ter tamanha obsessão pela arrumação mas a cabeça tão cheia de ideias desorganizadas? Estou tão virada do avesso, e gosto tanto. Por me sentir inteligente, talvez. Por dar valor ao que me rodeia e observar tudo com uma atenção outrora teria sido desnecessária.
Aqui estou, porém, mais uma vez, no local onde a luz e a escuridão lutam violentamente, ou se beijam de um modo concentrado: fica à tua escolha, na tua perspectiva. Aqui estou, de pernas cruzadas e de consciência finalmente livre. Límpida como a água numa miragem. Aqui me encontro entre a melodia das palavras e das gotas de chuva e o vago, o inoportuno, o embaraçoso jóquer escondido debaixo da secretária organizada que pouco sinto. Aqui me encontro, de tez iluminada, de olhos murchos, mas sonhadores. Aqui me encontro tomando conta de mim mesma e deixando que tomem conta de mim: Alguns de forma mais suave e prolongada; outros, mais brusca e curta.
E é tão bom sentir o prazer dos prazeres que é sentir-me indiferente à neblina espessa que me rodeia, fazendo-a desaparecer como se perdesse o seu sangue frio gota a gota, tornando-se cada vez mais transparente. Até porque desta maneira o coração não vê. O peso que perdi no corpo e ganhei em cima dos ombros voltará a equilibrar-se num ápice, posso agora ter a certeza disso.
Lembro-me de Camões se ter comparado a um inofensivo veado, no que se tratava à falta de amor, porque este é irracional (e estou farta de pensar nele, apesar de ser lindo de uma forma muito complexa).

terça-feira, 12 de março de 2013

Está bem.

"-Have you been drinking son? You don't look old enough to me.
-I'm sorry officer, is there a certain age you're supposed to be? 'Cause nobody told me."

Mal eles sabem que bem ao fundo do vidro da minha pupila se encontra a lágrima a que todos pertence. Que as tartarugas, ao eclodirem dos seus ovos, se apressam para chegar ao mar, mas que connosco essa distância é muito maior.
E eu continuo a não entender o porquê de entender, o porquê de prever o pior, o porquê de o recear, o porquê de ver a indiferença de todos por detrás da cortina vermelha, espessa, aveludada e pesada.
É tão assustador, porém, o desejo da surrealidade, o desejo de algo mais intenso, mais drástico de uma certa maneira, mais completo, mais definido, mas clandestino, mais repentino, mais imprevisível.
Será justo, então, lembrar-me das recordações mais banais? Mais vulgares? Menos importantes? Ou significarão elas algo mais?
Lembro-me de quando descobri a liberdade. Deram-me permissão para sair do hotel do Algarve e ir comprar guloseimas. Talvez por falta de paciência. Era tudo tão cruelmente diferente. Pedi pastilhas de morango, deram-me de limão: não gostava, nunca gostei. E apesar de, da mais simples das maneiras me ter apercebido de que nunca seria levada a sério, tive esperança que aquilo me soubesse bem, que gostasse na mesma, só por ter tido a liberdade de a ir comprar. Fingi que sim, mas enganei-me, mais uma vez. Mal eu sabia quantas vezes se repetiria a situação.