sexta-feira, 9 de março de 2012

; so close, no matter how far.


Às vezes, fico só a olhar para ti. Aperto os lábios, porque todas as palavras me parecem insuficientes. Aquilo que normalmente se diz nessas ocasiões, aquilo que é aceite pelo protocolo da convivência social, não chega para começar a exprimir todo o invisível que me inunda. Então, quase sempre sentada a uma mesa, fico só a olhar para ti. Nesses momentos, não ter palavras é muito melhor do que ter rios delas. Aquilo que não sei dizer existe com muita força e, se tentasse encontrar-lhe nomes, estaria a diminui-lo, a transformá-lo em qualquer coisa possível.

É essa a natureza da matéria que partilhamos, é essa a forma daquilo que nos juntou. Sem esse mistério, continuaríamos a seguir os nossos caminhos. Talvez a metros, talvez a quilómetros, talvez em hemisférios distintos, talvez em ruas paralelas, as nossas existências seriam indiferentes uma à outra. Não quero sequer imaginar a possibilidade desse mundo cinzento. Ainda bem que existem os livros, ainda bem que existe a escola, ainda bem que existe a internet, o desporto, a cidade, os lugares físicos e não-físicos onde nos encontramos. Ainda bem que existe o pensamento e a memória. Ainda bem que existe a ternura.

Mesmo havendo palavras, é difícil dizer aquilo que se quer dizer. A voz fica presa na garganta ou antes da garganta. Não vamos cometer esse erro. Tu foste chegando devagar, foste entrando e quero que saibas que, hoje, és parte da minha família. Penso em ti entre aquilo que me é mais valioso e, sem explicação, sinto saudades tuas de repente. Muitas vezes, sinto o toque do sol, tão suave, e sorrio ao lembrar-me que vou partilhar esse bem-estar contigo. Sinto-me muito grata pela companhia que me fazes. Contigo, nunca estou sozinha.

Os dias têm horas, minutos, e eu existo em todos eles. Não vejo o mundo apenas a partir das montras das livrarias ou das pequenas fotografias que acompanham crónicas, como se tudo estivesse controlado. Sou uma pessoa, Joana, e só muito raramente está tudo controlado. Há vezes, simplesmente, em que estou num quarto qualquer. Um quarto onde, depois desse dia, nunca mais voltarei. Os meus amigos, a minha mãe, a minha irmã, a cidade da Guarda está a muitos quilómetros. A distância faz de mim uma menina perdida. Há muitos mais exemplos, claro, o coração a bater contra algo que o aperta. Então, tu chegas e cobres-me com a força de me desejares tanto bem. Tu proteges-me com pensamentos que atravessam oceanos. Comoves-me com esse bem-querer. Obrigado por, entre tantas possibilidades, teres escolhido a mais bondosa. Tu constróis-me. Devo-te a pessoa que sou.

E não importa se estivermos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Tu mostras-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Tu tens muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-te e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo. Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-te por me acrescentares um sentido tão profundo. Estar-te grata é estar grata ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.



Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter.

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