domingo, 11 de novembro de 2012

Creepy

A andorinha de espuma decidiu acordar, e lambeu as pálpebras salgadas e semicerradas.

A princesa chegou a casa atrasada, mas em vez de perder o sapato, perdeu a cabeça. Arrancou cabelos. Tirou cada traço de falsidade que permanecia em si. Pensou. E este mundo de mentiras continua contra mim, a pobreza de cada coração pede descontos, cada traço de ternura espalhada e dividida num baralhos de cartas.
Ela fartou-se de vez. Tirou o gato do armário e calçou umas sapatilhas. Descoseu os lábios e praguejou à frente da família. Não se arrependeu. Roubou, e rasgou os cadernos. Arrancou todas as rosas do jardim e rebolou na terra húmida. Não teve medo. Partiu os quadros e riscou os retratos distribuídos pelas paredes do quarto. Partiu o gelo do lago e mergulhou, pintou o cabelo e bebeu vodka até de manhã.
Overdose. Nasceu feliz, morreu feliz, nasceu feliz de novo. Roubou um tigre no Zoo e fugiu à polícia. Não chorou. Acordou, calçou os sapatos, pôs os óculos. Bebeu um copo de leite e foi para a escola. Afinal, o mundo é um grande filho da mãe.
Porque há sempre um beijo por dar. Um sorriso por provocar. Um fantasma por descobrir, talvez. Uma rosa por oferecer. Um chocolate por comer. Uma palavra por revelar. Há sempre uma porra de um segredo por desvendar. A parede compacta-se, a tinta estala. Instala-se o ardor. Sem sequer respirar. Claustrofobia? Não.
A campainha toca mas a água já corre há horas. Deita-te. A água gelada corrói as articulações mais velhas. Água impávida e serena, como ela. O sol entra pela brecha da janela e ilumina-lhe o rosto. Seca-lhe os olhos até serem pó. Já não tens 5 anos. Disseram-te que eras crescida. A água torna-se gasolina. Dela, fede um ardor tóxico, uma memória intocável, uma fragrância mortal. A televisão desliga-se, os comprimidos flutuam. Há sempre um grito por dar.
E a chuva cai, inundado a chave que abre a porta aos teus olhos.

Faz o que te vai na alma.

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