Sabes quando choras e os teus lábios formam pequenas fissuras, ferimentos? Eles só te pedem para falares. Mas a verdade é que tu simplesmente voltas a humedecê-los. Não é que não possas falar, mas tu não queres, ou não deves. E porquê chorar pelo passado se ninguém faz para mudar o presente ou o futuro? Porque ninguém sabe pelo que tu passaste, ninguém percebe a maneira como lidaste com isso. Ninguém se lembra das insónias, das olheiras. Ninguém sabe sequer o que tu sabes e o porquê de o saberes. Mas as costas já te pedem descanso das noites mal dormidas. Carregas agora 4500 kg em cima dos ombros e 23424 km nas pernas. Cresces com isso, mas, e toda a delicadeza que sobrava? Desobedecera e fugira, não se sabe bem para onde, deixando assim a mágoa, a saudade, e a confusão que resta habitar os caminhos por mim percorridos. Isso e a falta de palavras.
Sempre invejo aqueles que mantêm esperança.
Foi na praia que lhe contei, que contei o que mais me aprisiona, pela primeira vez, a alguém. Algo que não devia contar nunca, principalmente. Contei-lhe ali, talvez, porque ao pé do mar as minhas lágrimas parecessem pequenas. E foi num silêncio cómodo e num olhar enternecedor que ele me envolveu nos seus braços, como se me dissesse tudo o que queria ouvir, tudo o que me salvava. E foi nesse dia que percebi que o meu lugar é com ele.
Eles escrevem sobre poeira e meras coisas. Sobre objetos metafóricos, uma visão prespetiva das marés congeladas, do orvalho matinal. E dos guarda-chuvas abertos, dos guarda-chuvas estragados. Até do ouro apanhado do rio, de pés descalços e gélidos. Do quotidiano do que é regular.
Nós retratamos o resto. Retratamos o intragável e o inoportuno, e fazêmo-lo de uma maneira tão melodiosa como a própria sinfonia do amor. Calma mas apressada, suave mas oscilante, em tons de magenta, prateado, verde-claro e bordeaux. E tudo sabe a fantasia, tudo tem um travo especial ou uma gargalhada maliciosa; maliciosa naquele bom sentido, num contexto de ternura.
E depois veem as noites, como se nada pudesse ser mais perfeito que a mera ocasião, as noites repletas de música e memórias com uma essência a canela, e uma profundidade tão grande de sentimento, uma explosão tão agressiva de pensamentos, um ardor tão exaustivo, tão emocionante, que toca qualquer um.
E tudo se torna diferente por te saber decor. Por conhecer cada traço desse corpo, por conhecer tão bem esse cabelo escuro, essas pestanas, esses braços confortantes, essa barriga apetecível. Por reconhecer qualquer parte de ti numa multidão. Por chorar de saudades quando tenho perfeita noção que passaram uma ou duas horas desde que te vi pela última vez, por não suportar não estar contigo; porque qualquer hora sem ti é uma hora perdida!
Porque tu nem imaginas o feliz que sou contigo.
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