sexta-feira, 28 de outubro de 2011

; impávido e sereno

 

juna

Lá estava o gordalhufo, a contar mais uma das suas histórias impossivelmente fascinantes de vida falhada, desta vez sobre um rapto num bar de strip. Vestia o seu roupão de seda roxo e dourado, nada mais. Um ar “profissional” como assim lhe chamava. Jogava as cartas sujas em cima da mesa de vidro muito riscada enquanto acariciava o gato felpudo e falava de boca cheia.
Claro que eles tinham de repetir todos os dias “e depois o que aconteceu, padrinho?” e ele acabava a história com um “e depois, engordei.”
Era um polícia, não se sabe bem se reformado ou simplesmente despedido, porque ninguém sabia realmente a idade dele. As crianças do orfanato viviam das suas histórias, e isso era o que seguramente mantinha o seu nível de ego bem superior ao que devia.

Eles não compreendiam, mas as coisas mudaram subitamente e as histórias fascinantes dele tornaram-se tristes e o fim não era como o de antes. Bebia demasiado, simplesmente porque queria, e o país não deixou que decorressem as visitas dos “afilhados”. Teve saudades.

Um dia, o padrinho visitou o orfanato mas as crianças já tinham crescido e sentiam mágoa por terem sido trocados por algo tão doloroso assim. A sua vida tinha agora sido arruinada. Então, o senhor deitou-se no seu sofá e ligou a televisão. O fogão cuspia agora gás silencioso para a atmosfera da casa poeirenta. Todas as portas e janelas estavam fechadas excepto a que levava ao quintal da vizinha. Então, pegou no gato, beijou-o, e disse:

“E depois, engordei.”

E fechou a janela.

; os outros.


Eles agem sempre como se o sorriso cozido sobre os lábios cerrados permanecesse vivo.
Como se, sinceramente, todo o chão abaixo dos seus pés desabasse apenas por miseras palavras que eles pensam que doem, mas no fim nunca entendem que todas as palavras são iguais, sejam elas verbos, adjectivos, advérbios de modo, nomes colectivos, pronomes possessivos, determinantes artigos definidos, palavras derivadas por sufixação ou prefixação. Todas são compostas por letras, e todas podem formar frases e fazer parte de uma metáfora. É isso que resume a lingua. É isso que define cada um de nós; claro que já ouvimos tudo em que supostamente deveríamos acreditar porque são palavras ditas pelo alguém. Mas o que eu acho é que sendo assim são todos iguais. Não no bom sentido. No sentido de arranjar alguém melhor e deixar o resto de nós para trás. Será justo ? Provavelmente não mas todos o fazemos. E se eu te dissesse que a vida não se define com humanidade? Não sou maluca, a minha realidade é simplesmente diferente da de outros. Mas e se fosse? Não sofria de loucura, simplesmente vivia dela. Viver não é viver para alguém, mas sim viver para ti próprio, envolvendo ou não outras vidas á tua volta. Tu escolhes o teu destino. Dizes que morrerias por mim, mas quem vai morrendo sou eu, desde o momento em que tentei descobrir como é que te viveria.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

; sim.

O amor? É confuso. Sem nomes, nem ilusões, sem escolhas ou clarões, surpreende.
Surpreende qualquer um, na sua teia maquiavélica, e distrai qualquer condutor concentrado na estrada futura.
Toda a gente, todo o ser já foi apanhado.
Não é simples como julgas, mas julga a simplicidade.
Compreende quem ama e quem é amado, deixa qualquer um hipnotizado. Não tem cura.
Acredita em respostas fáceis e foge a situações fáceis.
Convida o imaginável e explica o inderteminável. Não é seguro.
Não exclui ninguém, não critica pecados ou más intenções e sufoca. Não se preocupa com o passado.
Cheira a alma de cada um, e não se mede verdadeiramente.
Pode causar tonturas e náuseas.
Ninguém escapa.