Lá estava o gordalhufo, a contar mais uma das suas histórias impossivelmente fascinantes de vida falhada, desta vez sobre um rapto num bar de strip. Vestia o seu roupão de seda roxo e dourado, nada mais. Um ar “profissional” como assim lhe chamava. Jogava as cartas sujas em cima da mesa de vidro muito riscada enquanto acariciava o gato felpudo e falava de boca cheia.
Claro que eles tinham de repetir todos os dias “e depois o que aconteceu, padrinho?” e ele acabava a história com um “e depois, engordei.”
Era um polícia, não se sabe bem se reformado ou simplesmente despedido, porque ninguém sabia realmente a idade dele. As crianças do orfanato viviam das suas histórias, e isso era o que seguramente mantinha o seu nível de ego bem superior ao que devia.
Eles não compreendiam, mas as coisas mudaram subitamente e as histórias fascinantes dele tornaram-se tristes e o fim não era como o de antes. Bebia demasiado, simplesmente porque queria, e o país não deixou que decorressem as visitas dos “afilhados”. Teve saudades.
Um dia, o padrinho visitou o orfanato mas as crianças já tinham crescido e sentiam mágoa por terem sido trocados por algo tão doloroso assim. A sua vida tinha agora sido arruinada. Então, o senhor deitou-se no seu sofá e ligou a televisão. O fogão cuspia agora gás silencioso para a atmosfera da casa poeirenta. Todas as portas e janelas estavam fechadas excepto a que levava ao quintal da vizinha. Então, pegou no gato, beijou-o, e disse:
“E depois, engordei.”
E fechou a janela.
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